As árvores guardam a história do ar que respiram. Um estudo da USP mostrou que, durante a pandemia de Covid-19, os anéis das árvores de uma avenida de São Paulo registraram a queda da poluição dos carros e que a madeira ficou mais densa.
O que a pesquisa encontrou
A pesquisa, publicada na revista Environmental Pollution, foi liderada por Augusto Akio Lucchezi Miyahara, pós-doutorando no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena-USP), com orientação do professor Giuliano Maselli Locosselli. Os cientistas analisaram tipuanas da Avenida 23 de Maio, muito movimentada, e do Parque Ibirapuera, usado como comparação por ter menos exposição direta ao trânsito.

Como os anéis viraram um registro
Cada anel de crescimento foi dividido em 15 partes, porque o lockdown foi curto demais para ocupar um anel inteiro. Em seguida, os pesquisadores mediram a proporção entre dois tipos de carbono, o carbono-13 e o carbono-12, e usaram raios X para medir a densidade da madeira ao longo de cada anel. A proporção de carbono-13 subiu durante o isolamento, o que combina com menos CO₂ de combustíveis fósseis no ar. Locosselli explica: “Ao reduzir a emissão veicular, o carbono na atmosfera e no anel de crescimento ficam mais pesados.”
Madeira mais densa
Nas árvores da Avenida 23 de Maio, a densidade da madeira aumentou no período; no Ibirapuera, não houve mudança parecida. Os pesquisadores relacionam isso a uma adaptação ao estresse hídrico: com menos CO₂ no ar, as árvores abrem mais os estômatos, os poros das folhas, e perdem mais água. Uma madeira mais densa reduz o risco de rupturas no transporte de água dentro do tronco.
Por que importa
O estudo mostra que as árvores urbanas respondem de verdade ao que sai do escapamento e podem servir de termômetro da qualidade do ar de uma cidade. Locosselli lembra que uma queda brusca da poluição, como a da pandemia, pode ter efeitos diferentes dos de uma transição energética gradual, em que as plantas vão se aclimatando, e que são necessários estudos de longo prazo. Para quem vive em cidades como São Paulo, é mais um motivo para valorizar a arborização, tema de iniciativas como a campanha para restaurar florestas no Brasil com 1 bilhão de árvores e o mural com tinta purificadora que equivale a 750 árvores.
Fontes: estudo na revista Environmental Pollution (Cena-USP, projeto Florestas Funcionais, apoio da Fapesp, Capes e CNPq), descrito pelo Jornal da USP, onde a notícia foi publicada originalmente (29/10/2026).
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