Ela vive debaixo da terra, quase não enxerga e passou mais de cem anos confundida com outro bicho. Agora tem nome próprio: Siphonops maria, uma nova espécie de anfíbio encontrada no estado do Rio de Janeiro e batizada em homenagem ao nome feminino mais popular do Brasil.
Que bicho é esse
A Siphonops maria é uma cecília, anfíbio sem patas conhecido popularmente como cobra-cega. Apesar do apelido, não é cobra nem minhoca: é um vertebrado, com esqueleto, parente distante de sapos e salamandras. As cecílias cavam túneis com a cabeça, têm olhos reduzidos e usam órgãos sensoriais no focinho para se orientar. Por viverem escondidas, são difíceis de estudar.
Como a espécie foi descoberta
Os exemplares eram classificados como Siphonops hardyi, uma espécie parecida. A equipe liderada pelo biólogo Adriano Oliveira Maciel, do Museu Paraense Emílio Goeldi, com participação de Luís Felipe Toledo, da Unicamp, juntou várias pistas:
- sequenciamento genético;
- contagem dos anéis do corpo e comparação dos dentes;
- tomografia de alta resolução, que revelou detalhes do crânio.
Um exemplar coletado em 1902 na Serra dos Órgãos também mostrou as características da nova espécie. O exemplar de referência foi coletado em 2015 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos e está guardado no museu, em Belém. O estudo, apoiado pela FAPESP, foi publicado no Zoological Journal of the Linnean Society e ainda aponta duas possíveis novas espécies, uma de Ubatuba (SP) e outra do Espírito Santo.
Uma Maria especial
O nome tem dupla homenagem. Maria é o nome de mais de 12 milhões de brasileiras. “Acabou sendo também uma homenagem às mulheres do Brasil”, disse Maciel à Agência FAPESP. E lembra uma Maria em particular: uma das 11 pessoas escravizadas que, entre 1861 e 1874, plantaram mais de 100 mil árvores na Floresta da Tijuca, área que hoje faz parte do Parque Nacional da Tijuca.
Por que importa
O Brasil é o país com mais espécies de anfíbios do mundo, e muitas ainda nem têm nome. Descrever uma espécie é o primeiro passo para protegê-la: só dá para conservar o que se conhece. No caso da Siphonops maria, que parece existir só no Rio de Janeiro, saber onde ela vive ajuda a cuidar das matas que restam por lá. E o nome resgata a memória de quem ajudou a reflorestar uma das maiores florestas urbanas do planeta.
Fontes: Agência FAPESP, que publicou a notícia originalmente; estudo no Zoological Journal of the Linnean Society; reportagem também publicada pela Superinteressante.
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